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Dilma cede ao Toma Lá, Da Cá e sua equipe deixa a desejar


Deserto de ideias


Há mais esperanças na economia do que na política, no primeiro ano do governo Dilma. Apesar de o país crescer menos em 2011 do que em 2010, como esta coluna registrou ontem, na política não há qualquer sinal de novo. A formação do governo repete as mesmas velhas e gastas fórmulas de negociação e há muita figurinha repetida. O governo já nasce cansado.
A forma como a presidente eleita constituiu seu governo até agora repete os mesmos métodos e equívocos de governos anteriores. O mais relevante é o de não ter qualquer ideia que costure e justifique a aliança. Quando David Cameron, do Partido Conservador, e Nick Clegg, do Partido Liberal Democrata, decidiram fazer um governo de coalizão na Inglaterra, o primeiro movimento foi discutir um programa comum. Havia vários pontos de enorme divergência entre eles, inclusive sobre cortes de gastos. Cada um cedeu e depois foram sendo escolhidos os nomes. Quando o ministro era de um partido, se sabia o que significava. O ministro do Tesouro ser conservador era sinal de corte maior, o de Meio Ambiente ser liberal-democrata significava que o país continuaria defendendo o combate às mudanças climáticas.
No Brasil, o que significam as escolhas? Em termos de escolhas de políticas públicas há um ou outro ministro que se pode dizer que tem algum significado, mas no geral o que se vê é ou uma enorme mesmice ou algo ainda mais equivocado. O fato de o governo ter vencido a eleição significa apenas que as mesmas forças políticas governarão, mas não as mesmas pessoas.
O que dizer de o mesmo Edison Lobão nas Minas e Energia? Ele chegou lá sem entender coisa nenhuma de nada do tema, escolhido pelo presidente do Senado, José Sarney, e seu único mérito, aos olhos da presidente eleita, deve ter sido o de fazer exatamente o que ela determinava. Da Casa Civil, continuou sendo a ministra das Minas e Energia.
E que tal Pedro Novais no Ministério do Turismo? Significa apenas que Sarney consegue ter dois homens de confiança no governo. Mais uma vez se dá mais importância ao ex-presidente do que ele tem de fato. Ele não tem controle sobre o PMDB. Portanto, Dilma será mais um chefe de governo a superestimar a influência de Sarney sobre a legenda. Até quando uma pessoa conseguirá enganar tantos?
Num país que será sede de vários eventos importantes, o melhor seria ter escolhido alguém com juventude, dinamismo, e capacidade de visão para a área, e não uma pessoa que sai do bolso do colete do ex-presidente.
Alfredo Nascimento de volta ao Ministério dos Transportes, o que pode significar? Deve fazer a alegria de todos os lobbies já organizados nessa sempre tumultuada pasta. Além disso, sabe-se que o governo, para ajudá-lo na eleição, forçou o asfaltamento da BR-319, na Amazônia, apesar de todas as suas controvérsias. Mesmo assim, ele foi derrotado. Isso o credencia a ser premiado com a volta ao mesmo ministério que deixou para se candidatar.
Garibaldi Alves, na Previdência, Wagner Rossi, na Agricultura, Moreira Franco, na Secretaria de Assuntos Estratégicos, não representam ideia alguma. Garibaldi não sabia nem do tamanho do rombo da Previdência, Rossi já era uma nulidade na Agricultura, desconhece-se qualquer pendor de Moreira Franco para o pensamento estratégico. De vez em quando se diz que sua secretaria será recheada com outras funções, que ele vai formular ideias para o saneamento, e que passaria a também cuidar da regulamentação da Lei de Resíduos Sólidos. Aí fica mais esquisito ainda. A Lei demorou 20 anos para ser aprovada, tem um impacto importante nas empresas, que passarão a partir de agora a ter que investir em coisas como logística reversa. Não pode ser vista como um penduricalho na vazia Secretaria de Assuntos Estratégicos. Saneamento, que tem sido a vergonha nacional e área na qual o desempenho do governo Lula foi pífio, não pode ser dividido ao meio, para que alguém no palácio “pense” o tema e alhures outro alguém execute.
O ministro Guido Mantega foi bem quando não teve ideias próprias e tocou por inércia a conformação do ministério deixado por seu antecessor. Liberado pela crise econômica, fez um grande estrago: aumentou gastos, transferiu montanhas de dinheiro para o BNDES, confundiu indicadores, escolheu setores para as benesses do Estado, deu razão aos gastadores. Ao ser confirmado, mudou duas coisas: o discurso e a pessoa a quem entrega a sua lata de pastilha para garganta. Se a mudança do destinatário da lata de pastilha é real — pelo menos Lula registrou — a mudança de pensamento é mais improvável.
Para uma pessoa que durante toda a campanha disse que escolheria técnicos com vinculação política, mas sobretudo com capacidade comprovada, a presidente eleita deixa muito a desejar até agora.
Pior, ela ficou prisioneira do mesmo jogo político-partidário menor de toma lá dá cá, de cota do PMDB, cota de Sarney, cota do PT, cota do Lula. Existe até uma cota Dilma, como se ela não fosse passar a ser a partir do dia primeiro a presidente de todos os brasileiros.
O PIB do Brasil crescerá no ano que vem, menos do que no ano anterior, mas mais do que no primeiro ano do governo Lula, como disse aqui ontem. Mas com esses primeiros movimentos o que Dilma conseguiu na formação dos ministérios é a consolidação de práticas, escolhas, critérios e nomes do que há de mais antigo na política brasileira. Nunca antes um governo nasceu tão velho.

Por: Miriam Leitão - O Globo

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